
A suicida preparou minuciosamente a sua execução.
Comprou giletes novas para os pulsos. Prostrou-se confortavelmente na banheira de água morna. No velho rádio, um melancólico jazz. Estava triste, muito triste. Deixou escapar um profundo soluço que a fez desabar em choro compulsivo. A música a apertava mais e mais.
Suas lágrimas escorriam inocentes, como uma criança assustada.
Esperava a música certa para ser seu réquiem. Enquanto o jazz não terminava, recordava suas frustrações.
E a suicida não era uma coitada. Bonita até, fisionomia serena e apresentável, até que tinha uma vida boa. Emprego próspero, amigos bons, morava sozinha — é verdade — mas era rodeada de amigos.
Seu problema era o seu namorado. Há cinco anos juntos, ele simplesmente a largou. Abandonou-a, como quem abandona um saco vazio de pipocas na saída do cinema.
Isso a feriu profundamente. Sem seu amor, sem sua paixão, ela não era nada.
A morte, para ela!
E como o destino nunca favorece os fracos, o velho rádio largou a música que embalara seus romances com aquele cretino. Era o destino, sempre o destino. Não restou-lhe dúvidas: Arrancou a afiadíssima lâmina da caixinha e passou no pulso. Doeu muito, mas não foi profundo o suficiente.
O telefone toca.
Era ele.
Ele estava sozinho, precisando de companhia.
Ela rapidamente coloca um pedaço de papel higiênico no corte. Arruma-se e vai ao seu encontro.
A suicida não sabe mais se o seu ex-atual namorado a está salvando ou levando-a para o inferno.
Ela sabe que vai chegar e vão transar como dois animais. Quem sabe ele só queira sexo.
Quem sabe ela apenas esteja prolongando sua morte com um placebo insípido.
Chega na casa dele e ao olhá-la ele diz:
— Oi amor, o que aconteceu no seu braço?
E ela responde, sem pestanejar:
— Nada... Deve ser estigma de amor incurável.
